sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Era uma vez um barco


Eu tenho um barco e é onde me sinto segura. Eu mesma posso guiá-lo e gosto de controlar meu caminho com ele. Mas aí apareceu Ele, lá no meio do mar revolto, andando. Percebi que seus olhos eram só amor. E ele sabia meu nome, não aquele nome que me deram, aquele que eu assumi de bom grado ansiando pela aceitação das outras pessoas, mesmo sabendo que não era meu. 

Mas aquele homem de olhos amáveis sabia meu verdadeiro nome e pediu para assumir o controle do meu barco. Como ele pode pedir uma coisa dessas, quando esse controle é uma das coisas que mais prezo? E mais: como vou saber para onde ele está indo? Mas Ele explica que conhece o caminho muito melhor que eu, que me conhece. Percebo que minha vida e salvação depende dEle. Finalmente o aceito no meu barco e entrego a ele o controle, afinal Ele me ama, mesmo sabendo que passei por caminhos tortos, caminhos tortos que eu escolhi. Mas para ele não importa. 

Depois de algum tempo, quando ele percebeu que eu já confiava mais na sua forma de guiar, ele volta para o meio do mar e me chama de lá. Ele quer que eu vá encontrá-lo, andando. Me assusto de imediato e me pergunto quem, em sã consciência, me pediria uma coisa dessas. Meu barco é onde me sinto segura, onde tenho conforto e tudo o que preciso para sobreviver. É seguro aqui e eu gosto dessa segurança. Enquanto eu ponderava em minhas dúvidas e desconfianças, ele continuava me chamando com todo o amor que este mundo pode conter. Diz que eu devo confiar, seguir com ele e tudo o que eu preciso me será acrescentado. E mais: que ele não deixara que eu sucumba. Vejo que de fato ele sabe de todas as coisas e que, acima de tudo, me ama. 

Tudo bem. Decido sair do barco e ir em seu encontro. Percebo que posso simplesmente usar minhas forças e nadar. No entanto, depois de um minuto no meio do mar percebo que não posso. Mas não quero demonstrar fraqueza. Me ensinaram que tenho que conquistar com minhas próprias mãos, então insisto em nadar sozinha, mas em momento nenhum ando sobre as águas. As ondas são muito fortes e quase me afogo. Não consigo sozinha. Não posso fazer isso. Não sou boa o bastante, nunca vou conseguir. Engulo mais água quando percebo que Aquele que me conhece vem em meu socorro. Ele me chama pelo nome e me diz que sozinha eu não vou conseguir e que é por isso que Ele está lá, para me carregar no colo enquanto eu não conseguir andar sobre as águas. Que eu preciso observar seus passos e ter fé. 

"Mas Senhor, pelo que me conheço, nunca vou conseguir", é o que afirmo. Ele olha nos meus olhos e diz que que acredita em mim e que eu nasci exatamente para seguir os seus passos e ser igual a ele.  "Foi por isso que eu morri. Por você e por sua nova vida", ele diz. Sem forças, finalmente entrego minha segurança àquele que me salvou.